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CORPO MOLE

Luiz Fernando tem o rosto marcado pelos anos de prisão e de rua

       Canoas, 1981. Homem negro, solteiro e jovem. 25 anos. Ensino básico completo, fez supletivo. Trabalha nos ramos da construção civil e da engenharia. Não teve instrução superior formal. Residência no bairro Rio Branco, ao sul de Canoas, Região Metropolitana de Porto Alegre. Na ficha, a indicação da Brigada Militar que diz: tráfico de drogas e assalto. Pego no flagra. Nome: Luiz Fernando.

      Atrás das grades, quem o conheceu não poderia acreditar no que fizera. Não tinha má conduta, respeitava os colegas de cela e os guardas penitenciários. Prestava uma série de serviços no presídio. Entre outros, apresentava palestras à perícia criminal e a assistentes sociais para identificar e combater os problemas ocasionados pelo tráfico e pelo uso de drogas.

    Em sete de julho de 1994, ocorreu uma rebelião de presos no Presídio Central de 

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Porto Alegre, hoje Cadeia Pública de Porto Alegre. Na ocasião, 12 presos fizeram 24 funcionários do Hospital Penitenciário de reféns, exigindo quatro carros e armas de fogo para a polícia. Esse episódio teve como consequência a transferência do controle dos principais presídios do Rio Grande do Sul para a Brigada Militar. Um dos responsáveis pela negociação com os detentos, coronel Rodolfo Pacheco, passou a trabalhar no sistema carcerário. Luiz Fernando, que não tivera relação com a rebelião, conheceu-o e rapidamente se tornaram próximos.

       Em 2006, o coronel Pacheco ofereceu-lhe uma oportunidade. Ele poderia receber liberdade condicional em razão do comportamento satisfatório, mas prometeria nunca mais envolver-se com o crime. Aos 50 anos, Luiz Fernando era um homem novo. Fez a promessa cumprir-se. Teve uma ressocialização bem-sucedida, algo que não é tão comum no sistema prisional brasileiro.

  Logo que saiu, buscou serviços para reconstruir a vida. Cuidou de um canil no bairro Auxiliadora, zona nobre de Porto Alegre. Recebia R$ 250 ao mês, mas, com o atraso do pagamento, abandonou o trabalho. Voltou ao ramo da construção civil, sendo contratado pela Montreal Engenharia, em Canoas. Nesse período, casou-se e teve dois filhos. Simpático, fez grandes amigos e contatos no meio profissional. Luiz Fernando orgulhava-se daquilo que conquistara. Até que outro acidente de percurso o desamparou.

      Em uma tarde de 2014, ele descansava dentro de casa. Sozinho, recém-divorciado em decorrência de uma traição sofrida e com saudade do filho Fernando Gabriel, oito anos, a quem há alguns dias já não via, ouve um bater de palmas no portão da Rua Machadinho. Levanta-se, avista dois homens estranhos, vai ao seu encontro. Eles pedem para entrar. Luiz Fernando abre o portão, sorrindo. Os homens, um oficial de justiça e um policial militar, informam que a casa de sua família está sob medida protetiva e que ele deve sair imediatamente. Estranhando a situação, Luiz Fernando questiona a inexistência de uma audiência pública prévia, a que os homens respondem com rispidez. Alegam que, ao abrir o portão e permitir-lhes o acesso, ele cumprira com a medida. Luiz Fernando descobriria que a ex-esposa, prima do oficial de justiça da promotoria do Estado em Canoas, teria pedido para que o parente redigisse a medida protetiva às pressas, antes da consulta adequada de um juiz.

      Desempregado e sem casa, foi para o olho da rua. Assim está até hoje, aos 67 anos. Dorme onde consegue, nas ruas de Porto Alegre. Costuma visitar bairros mais nobres da cidade, sobretudo na Zona Norte, onde consegue roupas e alimentos doados pela vizinhança, que já o conhece. Não tem o benefício do Centro de Referência de Assistência Social, o Creas, reconhecido há três anos, já que perdeu o documento de identificação. Com o falecimento do pai há

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alguns anos, teve a expectativa de conseguir a herança, porém não consegue comprovar a filiação. Carrega consigo a pouca documentação que tem dentro de uma Bíblia, como se esperasse um milagre.

        Caminha em direção às vilas para vender a pouca reciclagem que o carrinho de supermercado comporta. De moeda em moeda, vive simplesmente. Compra alguns bens para sobreviver e o crack. Hoje não vive sem. Não trafica ou assalta, apenas consome, ainda que aqueles que o fazem tenham, muitas vezes, uma vida mais digna.

   Cumpre a promessa feita ao Coronel Pacheco, há 17 anos, bem como a sua sina. Não trabalha porque não consegue. Aos olhos alheios, vagabundo e viciado. Eterno criminoso. Do tipo que fica fazendo corpo mole.

Bolsa de Luiz Fer-

nando, com a Bíblia sagrada exposta

© 2024 - Pedro Stahnke

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