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NEGÓCIO DE MULHER

        As rodas traseiras giravam ao ritmo dos pequenos passos. Por entre as árvores e o descampado, cruzava a estrada, desenhando no barro por que passava. Pressa não tinha: o dia passava lentamente, como todos os outros. Os porcos, já cansados de tanta caminhada, pouco contribuíam com o pesado movimento da carroça. Estavam prestes a chegar em casa. Poderiam desfrutar de uma saborosa refeição disposta no quintal, onde restos de comida e lixo se misturavam.

        Poucos automóveis vão para aqueles lados. Os barcos de madeira são mais utilizados pelos moradores da região. Logo cedo, os homens remam lago adentro, procurando peixes. Garantido o jantar, voltam para casa ao final do dia. Quando  não o conseguem, as mulheres 

têm de imitar o hábito dos porcos e procurar o que comer na pilha de detritos que se acumula do lado de fora dos barracos. Como no curta-metragem de Jorge Furtado, na Ilha Grande dos Marinheiros, arquipélago do Lago Guaíba, a miséria era lei.

   A pequena Janaína mexia no lixo acompanhada da mãe, Dona Evinha. Concentravam-se ao buscar algo que pudessem levar para a cozinha quando uma figura estranha a Eva a surpreende, parada em frente ao portão da casa. A senhora de pouca idade faz uma proposta irrecusável para a mãe de Janaína: juntas, fundariam o primeiro galpão de reciclagem da região sul do Brasil. A mulher, chamada Matilde Checin, era educadora e irmã de Antônio Checin, irmão marista que trabalhou ativamente pelos direitos dos catadores.

Galpão de reciclagem d’as Evinhas. O material é separado do lixo e depois vendido

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       Pouco tempo depois, não mais precisavam da velha carroça de madeira, puxada pelos porcos. Dona Evinha foi presenteada com um caminhão para transportar o material reciclável. Enchia a carroceria do veículo e dirigia-se ao galpão, onde Janaína, com apenas nove anos e vasta experiência no ramo, ajudava ativamente na separação dos resíduos.

      Hoje, aos 45 anos, Janaína vive do outro lado do lago. Não foi por opção que saiu da ilha, há 10 anos. Quando a

prefeitura deu início às obras da nova ponte do Guaíba, centenas de moradores da ilha tiveram seus terrenos desapropriados pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transporte, o Dnit. O asfalto cobriu o barro e os velhos casebres. A história de Dona Evinha teve seu fim.

       Jana, como é apelidada, fundou a própria reciclagem na Rua Quatro da Vila Areia, a qual homenageia a mãe em nome: As Evinhas. Ela não trabalha com um só homem em seu galpão, fundado em 2018. Recebem o material de caminhões do Depar-tamento Municipal de Limpeza Urbana, o DMLU, ou compram dos catadores da região. Jana acredita que, gerando oportunidades para mulheres, retribui a Matilde Checin o apoio que deu às recicladoras da ilha.

       As reciclagens são, naturalmente, espaços de oportunidade. Parte essencial do negócio das ruas, são estas que dão o ganha-pão dos catadores, puxadores de carroça e car-rinheiros. Lá é que se separa o que pode ser reciclado do que deve ser descartado. O material então é revendido para empresas que fazem o reaproveitamento de subs-tâncias como o plástico, o papel, o vidro e o alumínio. Trabalhar em um galpão significa não ter que puxar carroça. Significa ter uma casa para morar.

    Fui alertado por alguns moradores da Areia de que as bocas de fumo geralmente se estabelecem próximas aos galpões de reciclagem. Os traficantes, de acordo com eles, não costumam receber jornalistas da

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da mesma forma que os catadores. Ciente disso, tentei manter-me distante desses focos, mas a tarefa não era tão simples. Os negócios, tanto o da reciclagem quanto o do tráfico de drogas, se cruzam constantemente. E não há dúvidas quanto ao mais lucrativo. Com frequência, as pessoas das ruas têm suas vidas envoltas pelas duas realidades.

Em cima, parede do

galpão em que se acumulam resíduos. Embaixo, Janaína

© 2024 - Pedro Stahnke

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