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SÍSIFO

Patrícia junta os pertences em uma bolsa e em sacos de lixo

       Era tarde. A lua entrava janela adentro. As lâmpadas já apagadas, Patrícia tentava dormir. No outro dia teria de se levantar cedo. Fechava os olhos, respirava. Não conseguia adormecer. Ouvia sons pela casa, de todos os cantos. A voz altiva quebrava as paredes. O pai gritava, a mãe chorava. Berros agudos e solavancos, socos e tapas. Patrícia tentava dormir. Gritos de dor. E então, silêncio.

⠀  Acordou cedo, vestiu-se. Calçou os sapatos e pôs-se a caminhar. Não iria à escola naquela manhã. Ao entardecer, não voltaria para casa. Tinha 14 anos. Desde os 10 anos, fugia de casa frequentemente porque não suportava ver a mãe apanhando.

Daquela vez seria diferente: Patrícia não voltaria, nunca mais.

         Apressada, mexe em sacos de lixo. Rasga com as unhas e dispõe o conteúdo sobre o solo. Procura entre os detritos algo para quebrar o jejum de horas. Encontra restos de pão. Não será suficiente, está faminta. Passa em frente aos portões e janelas das casas, implorando por comida. As famílias ouvem brevemente e, apesar da refeição disposta na mesa da cozinha, negam o pedido. Por isso, não gosta de pedir. Prefere ficar sozinha, embaixo do viaduto. Este, uma obra inacabada iniciada há quase uma década, fica localizado na entrada da Vila Areia, no extremo Norte de Porto Alegre , ao lado da

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Rodovia Marechal Osório. É o eixo secundário da nova ponte do Guaíba, abandonado, assim como Patrícia.

        Dorme sob o concreto, vive sob a pedra. A abstinência do crack é tão forte que o seu corpo chega a tremer durante horas. Ela deseja ser internada compulsoriamente, porque não consegue se ver livre da droga. Todos os dias faz a mesma coisa: come do lixo, junta seus pertences em uma pequena bolsa marrom e procura alguma maneira de conseguir dinheiro para comprar uma pedra de crack. Então fuma, chorando.

Como no mito

de Sísifo,

Patrícia carrega um fardo:

a pedra

      Por horas fica atônita, em estado febril. Tem fortes episódios paranoides, olha ao redor, nervosa e assustada. Acha que vê os traficantes em seu encalço, mesmo que não tenha dívidas com eles. Lembra dos filhos, são oito. Não sabe a idade. Perdeu a guarda dos dois mais novos assim que nasceram. A droga provoca uma severa anamnese. Pouco recorda de sua vida, a cabeça dói muito quando tenta pensar. Toma vários analgésicos para que a dor pare, mas o que realmente deseja é que as pílulas tirem a sua vida.

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       Como no mito de Sísifo, Patrícia carrega um fardo: a pedra. A ela está presa, não porque quer, mas porque dela não se vê livre nem em seus sonhos. Por ela respira, se levanta, procura ajuda. Sem o auxílio, volta a usar a droga. Então dorme e acorda com muita fome. Tudo se repete, dia após dia. Um ciclo vicioso que ela é fadada a viver. Sem esperança de resgate, invisível.

      Debaixo do viaduto, parece que não lhe restam alternativas. Contudo, nem todos que vivem com os pés nas calçadas têm tal destino.

Restos das últimas refeições feitas por Patrícia

© 2024 - Pedro Stahnke

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